
Em seu livro “O Saber dos Antigos: Terapia para os Tempos Atuais”, Giovanni Reale identifica, como um dos problemas da Modernidade, a perda do sentido da forma (e por consequência, do belo).
Para o filósofo, o século XX trouxe uma ruptura entre o conteúdo e a forma no campo das artes, reduzindo o nível expressivo “à insignificância dos conteúdos”. Isto é, pouco importa a qualidade do conteúdo da obra, tendo a forma adquirido um valor em si mesma. O culto do formalismo. Segundo Reale, esse processo implica a perda das raízes metafísicas da forma, que, para a sabedoria grega, tem a função de mediar a transmissão dos conteúdos, atribuindo ordem à desordem.
Essa reflexão me parece muito pertinente para compreender as disfunções da literatura hoje. Escritores que, sob o argumento da experimentação da forma ao último grau, acabam por esvaziar o conteúdo da obra, perdendo por completo o sentido do belo que a arte busca atingir. Não esqueço de uma experiência muito esclarecedora (na ocasião, fui tratada como completa ignorante, por sinal). Era apresentação de um livro de poesias, em que os setenta e poucos poemas eram variação do mesmo poema: só se mudou pontos, vírgulas, sinônimos, coisas assim. Em resumo, o conteúdo era o mesmo, o que interessava mesmo era a forma. Na ocasião, confesso que achei isso tudo uma tremenda bobagem e muito gasto desnecessário de papel (Saulo, que é mais seco e direto, disse que fulano estava descobrindo o movimento modernista com algumas décadas de atraso). O autor, na ocasião, disse que “não tinha controle sobre o conteúdo”, que o importante era a reação das pessoas sobre a “experiência” literária. Quanta carência, ein?
A forma, na arte, tem uma função ontológica clara: emprestar a beleza ao conteúdo, oferecendo-lhe ordem. Por isso é que sentimos tanta beleza ao ler um Machado de Assis, pela construção impecável da forma, tendo em visto o conteúdo a ser transmitido.
O próprio Machado, em diversos dos seus contos, faz graça desses escritores que não fazem nada a não ser “alinhavar ninharias”. Tão atual, o machadinho. A proposta é: não ao formalismo, sim à beleza formal dos conteúdos artísticos!
Referência
REALE, Giovanni. O Saber dos Antigos: Terapia para os Tempos Atuais. São Paulo: Loyola, 2002, pg. 131-148.