sexta-feira, março 12

Chororô


Eis o livrinho que me fará companhia na cansativa viagem de ida (e volta) à Fortaleza, amanhã, para ver o meu amor e minha família. Recém-lançado, comprei com o meu bônus na livraria da vila. Espero que seja bem aproveitado. Na contracapa, se lê:



"Os habitantes da aldeia do Pêssego, no sopé da montanha do Norte, são proibidos de chorar. Para manter os olhos sempre secos, a órfã Binu aprende a chorar pelos cabelos, e é isso que ela faz quando o jovem marido é levado à montanha da Grande Andorinha para trabalhar na construção da Muralha da China. A saga de Binu, que percorre centenas de quilômetros para entregar um casaco ao amado, é um mito milenar chinês, transmitido oralmente de geração em geração e recontado aqui por Su Tong. Ao longo da jornada, entre inúmeros perigos e maravilhas, Binu se depara com um mercado de gente, é aprisionada por meninos-cervos e acorrentada a um caixão de defunto. Acusada de louca e de feiticeira, vê a morte de perto mais de uma vez. Por trás da fantasia da fábula, Su Tong desvela a maneira como a cultura e a sociedade chinesa têm sido percebidas ao longo dos séculos. Fala também de sentimentos universais, como o amor e a persistência contra as injustiças e adversidades. "


Visão da praça de dentro da catedral



Bem me quer, mal me quer...




Para chegar à faculdade de metrô eu faço o seguinte trajeto: embarco na estação consolação, linha verde, salto na estação paraíso para uma baldeação, embarco novamente em direção a tucuruvi e, enfim, chego na Sé, cuja estação fica a duas quadras da faculdade. Hoje, apesar de não ter aula, precisava pegar um material na xerox e não resisti, dei uma passadinha para conhecer a catedral por dentro.



Tenho uma queda por igrejas e templos. Apesar de não ser religiosa, a paz e o silêncio me deixam tão tranquila que cheguei a passar horas explorando mosteiros e igrejas antigas quando fui à Itália, há alguns anos, numa viagem que aproveitei muito pouco, para ser sincera. Seguem fotos do lugar que, de fato, é mágico.

quinta-feira, março 11

De volta à razão e ao diálogo...


Minha pesquisa é focada na justificação dos direitos fundamentais, analisando especificamente a adequação dos modelos de ética procedimental para esse fim. Continuando as leituras durante a tarde de ontem, comecei o fichamento da obra “Ética Mínima”, da filósofa Adela Cortina, que se declarada filiada à corrente da ética da discussão como concebida por Karl-Otto Apel.

A obra se mostra interessante, pela organização do temas, dos mais simples, como a explicação dos termos, aos mais complexos, como o problema da fundamentação moral no direito e na política. Ontem eu estava sonolenta e me sentindo um pouco cansada, então não notei muita fluência na leitura. Não posso dizer se foi por descuido meu ou porque realmente o texto é truncado, mas o que importa é que depois de algumas tentativas eu consegui avançar na compreensão sistemática das ideias.

Um aspecto que me pareceu interessantíssimo – estou aguardando a biblioteca reabrir para buscar direto na fonte – é a análise Max Weber sobre a criação, na Modernidade, de um “sistema de complementaridade” entre a esfera pública e a esfera privada, dentro de uma lógica liberal, a fim de justificar que o campo de normatividade moral e jurídica não é passível de fundamentação racional. O argumento é apresentado por Apel como um dos principais problemas ao resgate de uma filosofia prática capaz de oferecer razões plausíveis para as normas orientadoras do agir humano como agir verdadeiramente livre. Para Weber, a racionalidade moderna é identificada com o conhecimento científico, de modo que toda e qualquer especulação que não tenha o objeto diante de si não pode ser considerada científica e, portanto, racional. Isso nos leva a conclusão de que a moralidade, por lidar com um objeto imediatamente abstrato, não pode ser racional e, portanto, não é capaz de justificação. Isso leva a uma retomada do convencionalismo (que nos remete muito muito a Rousseau, como salientado por Habermas) e também do decisionismo na esfera pública: as normas são válidas porque nós queremos que sejam válidas. Como superar filosoficamente o paradigma positivista e retomar a discussão pelo fundamento?

Essa reflexão precisa ser lapidada, claro, com as fontes, mas me parece o ponto de partida para a análise da retomada da hermenêutica e da lógica material como orientadores da construção e aplicação do direito no pós-guerra, que é a introdução do artigo que estou escrevendo para o CONPEDI. No ritmo que as coisas vão, não sei se consigo terminar até 5 de abril, especialmente agora que tenho ficado cada vez mais cricri com as referências. Vamos acompanhar.

Da Estrutura Econômica aos Direitos Humanos

Celso Furtado






Ontem tive aula com o professor Calixto Salomão, na disciplina “Teoria dos Direitos Humanos”, que também contará com a participação do professor Fábio Comparato. Fiquei empolgadíssima com o programa, considerando que o professor escolheu uma linha de reflexão para pensar os direitos humanos, para além de uma teoria generalista – e, por que não dizer, vazia. Minha experiência com essa disciplina no mestrado foi a pior possível, pela falta de preparo do professor, pela antipatia geral à sua pessoa, pelas expectativas inteiramente frustradas em relação ao engrandecimento teórico.

Tanto melhor, agora posso recomeçar com o pé direito, numa perspectiva interdisciplinar que me agrada muito. Isso porque o professor decidiu abordar, como temas principais: a) o problema da efetividade – estruturas econômicas e direitos humanos; b) afirmação histórica dos direitos humanos; c) a realidade atual dos direitos humanos.

A ideia central será: as estruturas econômicas exerceram um grande papel na determinação do arcabouço institucional brasileiro, de modo a perpetuar um sistema de exclusão onde o crescimento econômico geralmente está associado ao crescimento da pobreza. A leitura principal, obviamente, vai ser Celso Furtado, com o seu A Formação Econômica do Brasil. Na bibliografia, muitos economistas e historiadores, com predominância dos ingleses. Já para semana que vem:

1) Celso Furtado – Formação Econômica do Brasil (Fundamentos Econômicos da Ocupação Territorial; Economia Escravista de Agricultura Tropical)
2) R. Blackburn – The overthrow of colonial slavery
3) Calixto Salomão – Monopólio Colonial e Subdesenvolvimento

Vamos começar a brincadeira, São Paulo!

quarta-feira, março 10

Nobreza

Fotos do salão nobre da faculdade, onde ocorrem as grandes cerimônias e celebrações.











terça-feira, março 9

Dudu



Duduzinho é uma calopsita ainda bebê de Alexandre, meu irmão. Domingo, houve um almoço muito simpático na casa de minha mãe, para comemorar o fato de estarmos todos juntos e felizes. A maior festa é sempre com Dudu, manhoso e levemente histérico. Sempre lembro de Linus, dos Peanuts, para quem acariciar passarinhos trazia muito conforto. Traz mesmo, né?


Já já de saída para faculdade. Hoje eu vou passar o dia estudando, pra ver se me oriento na vida.

segunda-feira, março 8

Batalha

A minha viagem de volta a São Paulo foi muito cansativa, pela quantidade de meios que tive que tomar. O avião da Azul é realmente muito mais confortável, apesar de menorzinho. Se pudesse dizer o que é melhor, diria que é a simplicidade. Tudo é mais simples, menos gente, menos tumulto, menos comoção. Dormi a viagem quase toda, não precisei recorrer nem ao livro nem ao ipod, que sequer foi ligado. O problema foi: pegar o ônibus para Campinas numa fila gigantesca; o trânsito para chegar em São Paulo; o metrô lotadíssimo. Apesar disso, cheguei na hora prevista, mas destruída. Não dá pra chegar com bagagem. A bolsa e só, de preferência muito leve. Ainda não sei como vou conseguir essa mágica.

Hoje foi o primeiro dia de aula, após uma espera de meses. Comecei bem, com a disciplina “Aspectos Constitucionais do Direito à Educação”, ministrada em conjunto pelas professoras doutoras Nina Ranieri e Mônica Caggiano. Tive o privilégio de ouvir, ainda que muito brevemente, o representante da UNESCO no Brasil, Paolo Fontani, de voz mansa e olhar plácido, ressaltando que a separação entre o acesso ao direito e a forma de realização do educar não é plausível, exatamente como tentei demonstrar na minha dissertação. A disciplina tem o programa muito bom e vamos receber a visita de cerca de dez professores, muitos dos quais já apareceram nos rodapés dos meus trabalhos. Fiquei animadíssima, apesar da dor de cabeça e do cansaço físico.

A disciplina terá como tema central o princípio da igualdade e o direito à educação, em virtude dos cinquenta anos da Convenção das Nações Unidas contra a Discriminação no Ensino. Estou me sentindo em casa, verdadeiramente. Já tive muito contato sobre todos os temas do programa, muitos dos quais já com trabalhos publicados, inclusive. Estou animada com a possibilidade do intercâmbio de idéias. Trata-se de uma turma de vinte alunos das mais variadas origens e ocupações, de todo o Brasil.

Logo após fui assistir à aula de meu orientador na graduação, mesmo com os olhos pesados e a cabeça funcionando devagar e muito mal. A aula foi excelente. Ele funciona num ritmo frenético e desenvolve os argumentos pressupondo que sua platéia já está familiarizada com um horizonte de compreensão bastante complexo. Não imagino que os alunos do segundo semestre do curso tenham entendido muita coisa, especialmente no que se refere às explicações sobre o sistema social e a organização multicêntrica da sociedade atual. Para mim, foi muito proveitoso, muito esclarecedor.

De modo geral, estou com muita saudade de casa. Foi muito bom passar esses dias, perceber como são valorosas as pequenas coisas, a nossa cama, os nosso lençóis. Estar perto de quem a gente mais gosta. Não sei se qualquer plano de sucesso profissional é mais importante que isso. Estou muito animada com a aula, sim. Acho que esses meses serão de crescimento imenso, sim. Apesar disso, penso em voltar todo santo dia.

domingo, março 7

Passaporte para o Encontro

Durante março e abril estarei em casa todos os finais de semana, graças ao passaporte da Azul. A ideia de poder viajar para qualquer lugar do Brasil é bastante tentadora, eu devo admitir. Quem nunca imaginou, num dia de tensão e cansaço, ir ao aeroporto e escolher qualquer destino, qualquer lugar, desaparecer, simplesmente? Eu posso conhecer o Rio, posso conhecer as cidades em Minas, posso mesmo? Por hora, só sei que meu destino é São Paulo(Campinas) - Fortaleza.

Cabeça pesada, cabeça triste.



Em poucas horas estarei de volta à São Paulo, com a alegria de que amanhã as aulas finalmente começarão. Não vejo a hora de estar atribulada, cheia de obrigações, com mil e uma coisas por fazer. Ser estudante novamente, só me preocupar em chegar na hora, em terminar o artigo, em ler os livros a tempo. É muita sorte, grande oportunidade. Nesses meses de ociosidade, me senti especialmente culpada por não ter muito o que fazer de objetivo, de pontual. É muito triste o ritmo que a gente vive, que não admite esses espaços para reflexão. O bom é que, de fato, o tempo foi muito proveitoso para pensar sobre a vida, tecer planos para o futuro, refletir sobre o certo a fazer. Sinto uma calma maior, uma tranquilidade para enfrentar os passos da vida, ainda que a gente não saiba exatamente qual caminho deva seguir.






***




Percebi que Fortaleza tem um cheiro que é de mar, especialmente aqui, perto de casa. Sexta-feira fui à padaria comprar pão e queijo, e a luz era tão intensa, o sol tão forte, que não pude deixar de me sentir na praia, em veraneio, à beira do mar, ouvindo as ondas quebrando com força. Tenho sentido a falta do contato com a natureza, com a água, o cheiro de mato. Há pouco, olhando pela janela, vi uma fileira de coqueiros lá longe e pensei que é muito bom viver aqui, apesar do calor, apesar da falta de civilidade, da falta de acesso à cultura, do ritmo excessivamente tropical das pessoas e dos lugares. Em Fortaleza, me sinto mais humana, apesar de tudo. Fortaleza é minha casa, é onde eu guardo os meus sonhos do porvir.

sábado, março 6

Imagens de um dia bom...

Vocês já perceberam que Fortaleza tem um cheirinho de mar?



Monet


Winslow Homer



Para ler e ser feliz com a beleza dos dias em casa.


Sábado de Sol

Estou em casa desde quarta-feira, em Fortaleza, muito feliz entre os meus. Hoje, se tudo sair como previsto, vou almoçar bem, com os amigos, conversar e passar o tempo sem sentir o tempo passar. Em São Paulo, apesar das inúmeras possibilidades, o tempo vive cada minuto, todo instante é a solidão de ouvir os próprios pensamentos, as dúvidas, as vontades.


Apesar de estar voltando amanhã, estou animada. Segunda-feira terei minha primeira aula, já pela manhã. Chego em São Paulo por volta das oito, no terminal de Barra Funda, direto para a Sé. Minha primeira aula será sobre um tema que me é muito caro: aspectos constitucionais do direito à educação. O exato tema de minha dissertação. Não vejo a hora de começar. Todas as minhas disciplinas foram deferidas:


1) Aspectos Constitucionais do Direito à Educação - Nina Stocco Ranieri

2) Controle Jurisdicional de Políticas Públicas - Ada Grinover e Kazuo Watanabe

3) Teoria Geral dos Direitos Humanos - Fábio Konder Comparato e Calixto Salomão

4) Análise e Interpretação do Brasil - No IEB/USP

5) Teoria da Constituição Subdesenvolvida - Oliveiros


Uma em cada dia da semana, nessa exata ordem. Terei ocupações, sem dúvida!


Esses dias foram bons dias. De certa tranquilidade.

quinta-feira, março 4

Da Metrópole à Fazenda



Ontem comecei a ler o livro "Pelas Janelas da Fazenda", da americana Ellen Bromfield Geld, recém lançado pela editora Objetiva. Como muitos dos livros que leio para passar o tempo, encontrei exposto na livraria, enquanto passeava à toa num domingo chuvoso e solitário na cidade grande. O livro me chamou atenção por dois motivos: a temática e o começo, que, apesar de um pouco cliché, me pareceu muito inspirador.



A obra reúne as memórias de Ellen desde quando ela chegou no Brasil, há cinquenta anos, com o marido, a fim de cultivar no interior de São Paulo. Trata-se de ˜um olhar de um americano sobre a vida no interior do Brasil", e isso me cativou, por se tratar de uma realidade que nunca vivi de modo mais intenso e próximo. Já li umas quarenta páginas e tem sido uma leitura agradável, apesar de alguns lugares comuns sobre o Brasil de um modo geral, os brasileiros e os nordestinos. Alguns adjetivos em excesso aqui e ali, mas nada que prejudique a fluência geral do texto.


Resolvi escrever esse post sobre esse assunto porque lembrei de uma entrevista do Tzvetan Todorov para a última BRAVO, sobre a literatura e paixão. Para o linguista, "os livros acumulam a sabedoria que os povos de toda a Terra adquiriram ao longo dos séculos. É improvável que a minha vida individual, em tão poucos anos, possa ter tanta riqueza quanto a soma de vidas representada pelos livros. Não se trata de substituir a experiência pela literatura, mas multiplicar uma pela outra. Não lemos para nos tornar especialistas em teoria literária, mas para aprender mais sobre a existência humana. Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às idéias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade."


Tzvetan Todorov



O livro tem me ajudado a estar mais próxima de uma realidade que nunca conheci de perto e, de certo modo, a sentir a tranquilidade que é acordar pela manhã com o cheiro de café e grama molhada pela chuva. Parece até fácil ser feliz.