
Estou de volta a Fortaleza para mais quatro semanas antes do retorno a São Paulo. Voo cansativo, como sempre, o desgaste do contato estranho, o medo de altura, a certeza de que há algo de terrivelmente errado com o avião e que a voz do piloto transparece algum temor do inevitável. Não sei por que sou tão preocupada com essas viagens aéreas. Quando se tem de morrer, se morre.

Nesse momento de intervalo, de trânsito, creio que minha principal companhia será mesmo a literatura. Estou lendo um livro do Yasunari Kawabata, chamado Kyoto. Já é o terceiro, depois de A Dançarina de Izu e Beleza e Tristeza. Sempre termino os livros de Kawabata com a certeza de que a estética oriental não é para mim, mas esse, especificamente, é tão suave e delicado! A descrição da floração das cerejeiras, a observação da primavera, a contemplação meditativa que antecede a preparação de um quimono. É o retrato de um Japão que não existe mais, de um Japão em câmera lenta.
Só um trechinho, para ilustrar:
O mais espetacular, entretanto, é a variedade de cerejeiras cor-de-rosa de ramos pendentes que adornam o jardim sagrado do santuário. Não há nada mais representativo da primavera de Kyoto do que essas cerejeiras. É o que dizem.
Tão logo passou pela porta do jardim sagrado, Chieko sentiu até o fundo de seu coração o esplendor da plena florescência das cerejeiras de ramos pendentes. Ah! Havia encontrado a primavera de Kyoto mais uma vez, pensou. E ficou a contemplá-las. (pg. 20)
Apesar da suposta pausa, tenho alguns afazeres acadêmicos que precisam ser contornados antes da minha viagem: um artigo para um livro de homenagens e o texto final da monografia, que não faço ideia com que energia irei terminar (e começar, considerando que só há a introdução redigida). C’est ça, la solitude. Chez moi, plus douce.
P.S. A editora Estação Liberdade está publicando toda a obra do Kawabata em tradução direta do japonês. A qualidade é infinitamente superior. Recomendo essa versão.
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